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O dia em que eu “senti na pele” uma das maiores lições da faculdade de medicina

O dia em que eu “senti na pele” uma das maiores lições da faculdade de medicina

Você já foi alguma vez ao médico e saiu de lá sem confiar no diagnóstico ou na conduta tomada? Ou até mesmo em ambos?

Alguma vez já foi ao médico e se sentiu assim: “Mas esse médico nem olhou pra mim! Não perguntou nada!”

Infelizmente, cada vez mais percebo que essas histórias não são incomuns…

Então eu tenho uma pergunta pra você:

Quais são as habilidades que você acredita serem mais essenciais para um bom médico ou profissional de saúde? Seria o conhecimento técnico? A empatia? A escuta ativa? Qual a dose de equilíbrio? O que não poderia faltar?

Bem, eu tenho uma história pra contar…

Há cerca de 3 semanas atrás, em uma terça-feira, dia 28/05/19, eu ainda estava no 10º período do curso de medicina, cursando o internato de Ginecologia e Obstetrícia (hoje já posso dizer que estou no 11º pois acabei de entrar de férias! Haha!). Esse dia foi simplesmente incrível!

Seria o último dia das aulas de discussões de casos clínicos do trimestre. Havia programado com minha turma e com as professoras que faríamos um lanchinho para confraternizar o fim das nossas atividades! Mantivemos as atividades acadêmicas, mas com um clima mais descontraído.

Após as aulas, seria a resenha do último dia do meu grupo de estudos “GEDAAM PRÉ-RESIDÊNCIA” (nesse grupo, discutimos questões das provas de residência médica juntos — Instagram @gedaam_) em uma hamburgueria próxima à faculdade, o Mr. Hoppy. Ao sentar na mesa do local, iniciamos confidências, relatos e compartilhamos histórias. Com muitas, muitas risadas!

Eu estava prestes a ir para casa, quando disse:

Pessoal, antes de ir embora, irei ao banheiro, ok? Depois vocês poderiam esperar meu ônibus comigo no ponto?

Levantei-me e fui. Ao chegar no banheiro, a porta era daquela de correr, sabe?

Porém, ela estava agarrando para fechar, como se estivesse emperrada.

A moça que tinha acabado de sair do banheiro me disse:

Me falaram para apenas levantar a porta antes de empurrar. Deu certo comigo.

Dito e feito. Tentei seguir as instruções. Só que talvez você já imagine o que esteja por vir…

Sim! A porta foi com tudo para fechar e espremeu — espremeu oficial — meus dedos da mão direita contra a parede!

Na hora, eu assustei, e a dor não tinha vindo ainda. Após alguns segundos, a dor começou a vir. Com esforço, fiz meu xixi, sai do banheiro e pedi gelo no balcão. Voltei para a nossa mesa no bar. A dor foi aumentando muito! Até que se tornou, eu diria, alucinante! Fiquei nauseada, meio tonta, latejava!

Após a dor diminuir um pouco, depois de 10–15 minutos, graças ao gelo, eu acredito, consegui me levantar e falei com o meu namorado, Peu:

Vamos ao pronto socorro aqui perto. Acho que quebrei esses dedos, melhor já resolver de uma vez.

Era realmente perto, umas 3 quadras apenas. Chegando lá, por sorte, até que não demorou tanto, não estava tão cheio. Devo ter esperado uns 20–30 minutos pelo atendimento, os quais pareceram uma eternidade pois a dor estava realmente intensa.

O médico chamou, eu entrei com o gelo ainda na mão, e ele perguntou:

O que aconteceu?

Contei brevemente o ocorrido, ele deu uma olhada rápida em minha mão, dizendo “É, tá um pouco inchado mesmo, né?”, e prontamente me encaminhou ao raio X.

Radiografia tirada, levei-a até ele. Ainda sentado ele pegou e olhou-a sem colocá-la no suporte com luz, o negatoscópio (sabe aquele próprio para ver raio X?), com ela curvada na mão, procurando algo em um ponto específico que ele julgou ser o correto, e disse:

Não teve nada não. Vou te prescrever um remédio.

Eu ainda estava com muita dor e aceitei. Enquanto isso, Peu olhava de longe, intrigado, para a radiografia.

Peguei minha receita, sai, agradecendo. E o Peu continuava olhando para a radiografia. E então ele virou pra mim e disse:

Olha só isso aqui, achei muito estranho, parece fratura.

Eu olhei junto com ele.

É, tá estranho mesmo. Vou voltar lá.

Decidi retornar e esclarecer a situação. Cheguei lá, o médico estava sentado e eu falei:

Ei, desculpe-me mas como você se chama?

Me chamo “Fulano”.

Então “Dr. Fulano”, é que eu sou estudante de medicina, estava com meu colega, e nós ficamos com uma dúvida em relação à interpretação do raio X, você poderia me ajudar?

Qual dúvida? — ele indagou.

O que seria essa linha preta? — perguntei enquanto colocávamos a radiografia no suporte com luz, onde talvez ela já devesse ter sido colocada desde o primeiro momento.

Ele bateu o olho e rapidamente falou:

Nossa, realmente, eu não tinha visto. Tá quebrado.

E apontei também para outro dedo:

E tem esse aqui também né?

É, também tem aí…- ele disse.

Basicamente, duas fraturas de falanges distais (osso da ponta dos dedos), as quais passaram desapercebidas pelo plantonista no primeiro momento. Ele então me orientou e me passou um atestado de 15 dias de afastamento das atividades (de fato seria inviável realizar as tarefas práticas do internato com a mão dominante daquela forma).

No dia seguinte, decidi compartilhar o ocorrido com meu professor de Ortopedia (estava cursando essa disciplina neste trimestre), a fim de me orientar melhor com relação ao caso e a conduta tomada.

Após fazer os comentários ortopédicos pertinentes ao caso, ele me surpreendeu com a seguinte lição:

Lição 323: procure sempre se colocar no lugar do paciente, valorize suas queixas, suas dores, olhe para ele, mesmo que você esteja cansada, triste ou preocupada com outras coisas.

Lição 323?! Você pode ter se indagado! Haha! Esse professor tem esse hábito extremamente divertido de nos passar lições como essa, ao longo das aulas, utilizando números completamente aleatórios. Acredito ser seu modo criativo de transmitir ensinamentos valiosos!

Sua fala me tocou fundo, percebi a empatia com a qual havia recebido meu relato. Foi acolhedor. Dessa vez, pude vivenciar esse aprendizado estando do outro lado, fez-me perceber o grande valor dessa postura de forma muito mais profunda.

Qual foi o meu grande aprendizado, afinal, com tudo isso? Talvez… que eu deva estudar muito e buscar ter o máximo de cuidado com o paciente de modo a evitar erros como esses? Seria isso suficiente?

Bem, confesso que, em um primeiro momento, eu havia ficado irritada com aquele médico, senti-me como se ele não tivesse dado atenção adequada ao meu caso. Porém, alguns dias após (os tais 15 dias do atestado), com os meus dedos, apesar de ainda bem roxos, com um funcionamento já razoável, pude pensar com mais clareza. Agora já vejo sua falha com mais empatia. E percebi que minha irritação não tinha a ver com ele, mas sim comigo mesma.

Eu tinha medo de que em algum dia fosse eu a cometer, mesmo que bobo, um erro como aquele e acabasse por prejudicar alguém por isso.

Aprofundando ainda mais em meus sentimentos, uma voz mais acolhedora ganhou mais intensidade dentro de mim, e me disse:

Errar, falhar, perder-se é inevitável no percurso de quem pratica e está no exercício da profissão. Hoje foi ele, amanhã poderá, quem sabe, ser você ou qualquer um de nós. E está tudo bem. O que de fato podemos fazer com relação a isso?

Acredito que uma forma de minimizar isso é estar sempre na busca! Na busca de mais conhecimento técnico-científico? Sim, sempre! Mas também, por que não, de nos tornamos melhores seres humanos, capazes de cuidar de outros seres humanos, da forma mais ampla que pudermos expandir esse conceito.

Em momentos de vulnerabilidade, o que mais desejamos, muitas vezes, é sentir que nossa queixa foi ouvida e nossa dor foi valorizada. Assim, se você for da área da saúde, ou qualquer profissão que envolva o cuidado com o outro, tenho uma pergunta final pra você, não há respostas certas, apenas lhe convido a reflexão:

Que profissional você deseja entregar para o mundo?




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